Opinião: Uma crise de e da humanidade


No próximo dia 1 de janeiro, António Guterres – indiscutivelmente uma das personalidades do ano que agora se aproxima do final – inicia funções como secretário-geral das Nações Unidas, num cenário que revela uma profunda crise do multilateralismo, agravado pela eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos da América e pelos primeiros sinais que as suas escolhas para os cargos-chave da nova Administração indiciam.

Mas, o símbolo maior dessa crise do multilateralismo foi, e continua a ser por estes dias, a tragédia humana vivida em Alepo, a maior cidade da Síria, com uma história notável (com Constantinopla e o Cairo, Alepo formava uma espécie de “triângulo dourado” do Império Otomano, com uma identidade cultural e arquitetónica única). A incapacidade da comunidade internacional em conseguir um entendimento perante uma crise humanitária destas proporções é um terrível sinal da falência do multilateralismo, que é a base em que assenta a Organização das Nações Unidas. Na guerra da Síria, de que Alepo se tornou símbolo maior, mais do que identificar os “bons” e os “maus” (porque a selvajaria, é disso que se trata, é partilhada), importa reter o seguinte: já morreram nos últimos cinco anos qualquer coisa como meio milhão (!) de pessoas e mais de dois milhões (!) ficaram feridas.

Não, Alepo e a Síria já não são “só” uma terrível crise humanitária, com um rasto indelével de dor e de sofrimento. São uma verdadeira crise de e da humanidade.

O papel que espera António Guterres é, pois, do mais difícil e delicado que seria possível imaginar. Desde logo pela necessidade de voltar a reerguer a confiança na plataforma de multilateralismo que a ONU constitui e deve continuar a constituir. Aquilo que Guterres definiu, no seu magnífico discurso de posse e que constitui um verdadeiro programa – muito exigente – para o seu mandato: “Trabalharmos juntos para passarmos de ter medo uns dos outros a confiar uns nos outros”. É um verdadeiro e colossal trabalho de “engenharia” pesada (ou de “relojoaria suíça”, numa perspetiva mais fina…) aquele que o aguarda. Uma tarefa impossível, dirão alguns. Com franqueza, não sei. Mas sei que ninguém estaria em melhores condições para o fazer que António Guterres. “Farei o meu melhor para servir a nossa humanidade”, prometeu na sua posse. Tenho a absoluta certeza que sim. Boa sorte, António Guterres.

(in Jornal de Notícias)